Se falaram nas primeiras linhas de um poema
Se encontraram em alguma esquina virtual
Se beijaram na última fila do cinema
Ensaiaram o amor feito peça teatral
Esqueceram as letras da canção
Se perderam no fim do terceiro ato
Se calaram em frente a televisão
Se enternizaram no porta-retrato
6.13.2009
5.29.2009
A vida do vizinho
Eles se viam na TV, um reflexo de suas composições. Seus desejos transitavam entre a realidade e a ficção
Desejo-corpo-imagem
Não despregavam os olhos da luz. Rostos iluminados pela hipnótica caixa de ilusões. Só piscavam no intervalo dos cortes, com uma dinâmica cada vez mais rápida exigindo uma habilidade dos olhos que faziam escorrer lágrimas, numa espécie de purificação do canto esquerdo do glóbulo ocular. Há um mês ganharam a promoção do Sistema de Canais Interativos – uma nova programação para uma vida nova. O novo pacote incluía colírio para os olhos do cliente. Sentaram-se todos num só tempo para o sagrado momento.
Desejo-corpo-imagem
Não despregavam os olhos da luz. Rostos iluminados pela hipnótica caixa de ilusões. Só piscavam no intervalo dos cortes, com uma dinâmica cada vez mais rápida exigindo uma habilidade dos olhos que faziam escorrer lágrimas, numa espécie de purificação do canto esquerdo do glóbulo ocular. Há um mês ganharam a promoção do Sistema de Canais Interativos – uma nova programação para uma vida nova. O novo pacote incluía colírio para os olhos do cliente. Sentaram-se todos num só tempo para o sagrado momento.
A mais velha tinha rosto e busto de mulher, a mocinha tinha medo de taruíra, e sonhava com o matador de dragões, o herói que viria buscá-la na motocicleta com adesivos de tele-entrega. O moleque do meio sentado a ponta do sofá, nada diz, se quer respira, coisa da asma. A mais nova deseja ser grande, na cor dos lábios, no tamanho da saia, na eterna pirraça de criança e chora nos intervalos pela mamadeira. A mãe sonhou ser Merilyn Monroe, agora se contenta com o novo rotulo do xampu. O pai é pai de outras famílias, mas sentava-se nas quintas compondo o sofá da sala da família feliz.
Hora do programa preferido da família escolhida para o teste do sistema. “A Vida do Meu Vizinho” terá outros nomes em outros países. O novo programa incluí câmeras escondidas na casa ao lado. A vida do vizinho por tantos planos, cortes dinâmicos, composições ousadas, trilha sonora original e um novo conceito de interatividade que permite ao espectador escolher o cômodo da casa que quer ver, o que já causa conflitos na hora de decidir quem fica com o controle remoto.
No inicio o enredo era meio sem graça, nada acontecia. Por muito tempo realmente nada acontecia. Sabe-se lá porque as histórias foram costurando um novelinho, cada vez mais enrolado. Sônia amava Walter que amava a empregada que amava Hugo, que tinha um amor secreto. E a novelinha cativando todos os membros da família feliz, mesclando momentos de emoção e suspense.
Heverton o moleque de 13, adorava as cenas do banheiro ou do quarto da empregada. Apesar da classificação, masturbava sua imaginação adolescente nas sessões de tarde.
Beatriz, a mais velha apaixonou-se por Hugo, já no primeiro capítulo. “Nunca tinha reparado, mas o Hugo fica bem na TV”. Estudam no mesmo colégio e na ultima semana Beatriz passou a sentar-se mais próxima de seu mais novo ídolo. Hugo sempre manteve uma paixão escondida por Beatriz, mas o seu vizinho não tinha graça alguma antes de protagonizar o reality show.
Houve um episódio em que Walter, o pai de Hugo, chegou do trabalho cansado e deitou-se no sofá da sala, ali permaneceu por horas lendo seu livro predileto “Paz de Espírito: Como ficar milionário da noite pro dia”. Paulo, pai de Beatriz, saiu mais cedo da fábrica na sexta e passou na banca de usados para comprar seu exemplar. Paulo, acostumado somente ao caderno de esportes, agora exibia orgulhoso o seu mais novo tesouro, tinha nas mãos a chave dos seus sonhos.
A mãe, Marilene, se irritava de vez em quando por não ter outra vizinha para comentar os capítulos, uma das regras de implantação do sistema. Vive criticando a vizinha Sônia, protagonista da casa ao lado, mas chora todas as noites diante do espelho antes de dormir.
O moleque que quase nada dizia gritou numa noite “parece filme”, no que irmã mais velha retruca “mas é vida real”.
No fim de um mês, o grande final. Um dos personagens/vizinhos morreu assassinado, e isso sem sombras de dúvidas, aumenta os índices de audiência. O teste do sistema foi um sucesso.
2.06.2009
ESTAÇÃO
Pelo pé de flor tá lá
folhas a voar
Pêlo, pele, neve, ar
Ou o mar se abriu
se tingiu sem cor
ou o tom no vazio
sem flor
estas são
flores tão belas
Como pode ser tão seco coração?
folhas a voar
Pêlo, pele, neve, ar
Ou o mar se abriu
se tingiu sem cor
ou o tom no vazio
sem flor
estas são
flores tão belas
Como pode ser tão seco coração?
1.16.2009
Mulher
A palavra é um parto
E me parte inteiro
um dia vê-la
partir
Part
ido
espaço
perdido num tempo qualquer
E se o tempo tem voltas
o mundo gira aos teus pés
sozinho
meus sonhos não tem onde ir
Agora é fingir ser um outro
quando o olhar do outro surgir
e cair
sempre a mesma cilada
de um olhar qualquer
E eu sabendo que nada
de ti vou saber
Mulher
A palavra é um parto
E me parte inteiro
um dia vê-la
partir
Part
ido
espaço
perdido num tempo qualquer
E se o tempo tem voltas
o mundo gira aos teus pés
sozinho
meus sonhos não tem onde ir
Agora é fingir ser um outro
quando o olhar do outro surgir
e cair
sempre a mesma cilada
de um olhar qualquer
E eu sabendo que nada
de ti vou saber
Mulher
11.19.2008
FABULEMA
11.09.2008
Aguardo a chuva cair
sobre meu manto negro.
O tempo aqui passou feito gotas ao vento.
E guardo a chuva em mim
como quem guarda um segredo.
O vento aqui passou feito gotas de tempo.
E guardo este instante na memória
história que já sei de cór
a chuva por dentro me molha
traduz meu corpo em suor
sobre meu manto negro.
O tempo aqui passou feito gotas ao vento.
E guardo a chuva em mim
como quem guarda um segredo.
O vento aqui passou feito gotas de tempo.
E guardo este instante na memória
história que já sei de cór
a chuva por dentro me molha
traduz meu corpo em suor
8.24.2008
Poeminha para lê-lo
Deixo códigos
pra quem quiser decifrar.
pra quem quiser decifrar.
Já era tarde quando lhe deram o aviso final.
Seus olhos reagiram alegres e ele se deixou ir.
Seguiu o itinerário do ponto final ,
sem angústia, sabia que iria retornar.
Quebrem-se os códigos.
O que era lei não será.
O que era lei não será.
A fumaça turvou seus sonhos de agora e já não podia gritar.
Sussurrou um sorriso leve,
de desejo e saudade.
Criem-se novos,
mude tudo de lugar.
mude tudo de lugar.
Brincou de viver, na ciranda que vai e volta.
Não se cansa de rodar.
E de novo meu signo se rende ao teu olhar
Me veja, me leia, me beije,
Me veja, me leia, me beije,
sou a letra solta,
soletre um nome qualquer para me identificar.
E a noite partiu como quem
se funde ao breu,
e aguarda um novo amanhecer,
deixando de ser,
para sempre,
o mesmo de ontem.
8.22.2008
Inundo de restos minha rua.
Por onde falham meus pés
existem buracos tão infinitos
que me deixo cair atordoado.
Restos de mim enchem caixas, gavetas, memórias e corações.
vagando em novas trilhas,
tropeçando em resquícios de obras inacabadas.
Poeira amontoada que o tempo engole
e o vento leva daqui pra lá, de lá pra cá...
Por onde falham meus pés
existem buracos tão infinitos
que me deixo cair atordoado.
Restos de mim enchem caixas, gavetas, memórias e corações.
Acumulo o mundo nos bolsos e o esqueço ou perco pelos cantos.
Logo levanto e sigo a diante,vagando em novas trilhas,
tropeçando em resquícios de obras inacabadas.
Poeira amontoada que o tempo engole
e o vento leva daqui pra lá, de lá pra cá...
8.08.2008
A Namoradeira, Janela Virtual ou Olhar alheio
“...Devagar as janelas olham, eta vida besta meu Deus.”
Carlos Drummond de Andrade
Aquela dona saiu da janela.
Cansou da vida dura de olhar a rua passar.
Aquela dona saiu da janela.
Cansou da vida dura de olhar a rua passar.
Prefere agora o conforto da sala de estar.
A vista permanece lá.
mas sua janela nunca mais foi a mesma,
nem ela.
A vista permanece lá.
mas sua janela nunca mais foi a mesma,
nem ela.
Assinar:
Postagens (Atom)

